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                                      (Tela de Luiz Henrique)

 

Lendo o mundo

 

Carros em ritmo combustível, pessoas em pensamentos informáticos. Bipes, descamisados celularizados, bombardeios de vozes mega-fônicas, anúncios de preço de coisas que não valem. A velocidade do barulho dos freios que sem consciência livram uma família da fome. O zunido de repetições cotidianas em uma sinfonia regrada pela obrigação de manter-se vivo. Na praça, o velho parecia estar desconexo ao cenário que o cercava. Uma figura atemporal. O ritmo do mundo era outro para ele. Em sua calça de tergal bege muito bem frisada, sapato marrom com a sola gasta, camisa xadrez em tons cinza e vermelho com pequenos detalhes em verde, seu boné inglês, o relógio de bolso deixando-se aparecer apenas o cordão, ele senta-se confortavelmente em um dos vários bancos de madeira. Com gestos calmos, suas mãos abrem o mundo a sua frente. Isolado, agora sem se preocupar com a disritmia imposta pelas máquinas invisíveis que o cercam, ele vê o mundo ao seu tempo. Escolhe por onde começar. Pondera, aceita, desmente, conclui, ri e também chora. Mesmo assim, suas mãos não se descuidam desse mundo. Elas deslizam sobre ele. Às vezes para orientar para o que vai ser visto, às vezes para empunha-lo como se empunham as rédeas de um corcel selvagem. Entretanto, em todos os momentos o velho sabia que o que estava em suas mãos era muito mais tateável que o cenário que o rodeava. Ele sentia a textura, o cheiro daquele mundo de tinta e embriagava-se daquela fonte. Mais que se informar, ele percebia que o mundo rodava e que os fatos já não eram tão distantes, os lugares já não eram tão inacessíveis e as verdades não tão reais. Mais que isso, montava seus fatos, desvendava seu lugar e, principalmente, percebia suas verdades. Ali, no mundo de tinta e papel que ele abria todos os dias, sentado no banco da praça, ele tinha certeza do que realmente era: um leitor.

 

   



- Postado por: Sandro Mazurechen às 20h20
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Fórmula para dizer tão claramente o que sinto.

  

Escrever é definitivamente uma ação subjetiva, afinal, cada pessoa escreve o que e como pode. Lendo um dos meus textos, uma amiga me perguntou “qual é a fórmula para dizer tão claramente o que sinto". Minha primeira resposta foi: "Boa pergunta!". Talvez, melhor resposta seria, sem qualquer intenção de parecer grosseiro: "Não sei, quem sente é você." Falar sobre o que se sente realmente não é uma tarefa das mais fáceis. Expor-se ao mundo através de palavras é certamente uma responsabilidade que nem todos gostariam de assumir. Mas, para aqueles que desejam desnudar sua alma frente à crítica, muitas vezes destrutiva, dos outros, posso explicar como eu faço para dizer o que sinto. Parto do princípio do egoísmo humano. Assim como Carlos Heitor Cony, acredito que só se produz algo realmente bom em estado de tristeza. A alegria, o estado de graça, a felicidade, o estar satisfeito (chamem este sentimento do que bem lhes entender) nos coloca em um casulo egocêntrico quase que impenetrável. Isto mesmo, somos egoístas quando estamos amando, quando recebemos um elogio, quando nos é dado voz e vez. E este sentimento faz com que, na maioria das vezes, guardemos esses sentimentos somente para nós. Não permitimos que outras pessoas compartilhem de certas alegrias conosco. São sentimentos nossos, intransferíveis, e guardamos todos em caixas blindadas, mas nem sempre intransponíveis. Caso contrário, se nos sentimos acuados, tristes, infelizes, abandonados (seja em qualquer grau ou circunstância), não permitimos que esses sentimentos nos acompanhem por muito tempo. Sempre procuramos alguém com quem falar, sempre procuramos um ombro amigo, mas nem sempre é suficiente. A dor incomoda, não a queremos tomando conta do nosso dia. Afinal, sabemos que é próprio da tristeza e da dor acomodarem-se em parte pequena de nossa existência e crescerem sorrateiramente, até tomarem conta de boa parte do que nos torna vivos. Não estou dizendo, com isso, que só se deve escrever sobre coisas tristes, elas também podem dar vazão a textos que esbocem alguma alegria ou, pelos menos, esperança. Mas é a tristeza que nos põe de frente com a vontade de botar para fora o que nos incomoda. Acontece que não basta somente por para fora. Para que as palavras escritas traduzam na essência o que se sente é preciso que o texto, antes de mais nada, te incomode. Deixe o texto perturbar-te até o ponto de ele ser parte daquilo que você está sentindo. Transfira para ele, sem metáfora alguma, todas as possibilidades de sentimentos contidos já há tempos e espere que ele tome vida por si só. Por fim, tenha consciência de que nem todos estão prontos para perceber exatamente o que cada palavra realmente significa para você, e que muitas vezes seu texto vai ser encarado somente como mais um desabafo de uma alma perdida dentro de sua própria existência.

 

   



- Postado por: Sandro Mazurechen às 16h51
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Apenas uma vez

                                    

 

Alguma vez você ouviu a música do sorriso de uma criança? Não? Pois deveria. Alguma vez você sentiu o toque do olhar de quem te ama, ou o sabor de um carinho na nuca antes de dormir? Não? Então me diga quantas vezes lhe faltou ar de tanta alegria. Quantas vezes você encontrou pela vida alguma coisa com cheirinho de bebê? Quantas vezes seus olhos se encheram de lágrimas ao ver uma paisagem, não por ela te lembrar alguém ou algo, mas apenas por sua beleza? Qual foi a última vez em que você sentiu seu corpo arrepiar ao escutar uma canção realmente bela, ou a voz de alguém que você ama? Não se lembra? Pois deveria. Você deveria lembrar de todas as vezes que seu pai o pegou pelas mãos e o ajudou a cruzar um pequeno córrego d’água, que para você mais parecia um rio furioso e interminável. Devia lembrar de cada esforço que você fez, de cada privação voluntária você foi capaz de permitir-se para ver a felicidade daqueles a sua volta. Não lembra? Que pena, é realmente uma pena. Diga-me, então, se você lembra de alguma vez ter ficado com a barriga doendo e o maxilar adormecido de tanto rir de uma propaganda boba na tv. Diga-me se você lembra de ter ficado encabulado por um comentário malicioso sobre seu jeito de se vestir. Ou de alguma vez ter chorado como criança ao reencontrar as fotos daquela pessoa que sempre seria perfeita para você, e faria da sua vida algo perfeito e que, por algum motivo fora do seu alcance e da sua compreensão, desapareceu sem dar qualquer explicação. Você não lembra, não é?  Vou tentar algo mais fácil. Quantas vezes você encontrou no meio de uma multidão, em uma festa ou mesmo na rua, uma amiga que você não via há muitos anos, e percebeu que ela continua a mesma, e ignoraram todas as pessoas a sua volta e ficaram durante horas, em pé, conversando sobre tudo o que aconteceu na última década? Também não? Acho que não! Talvez você não lembre por não tido tempo de viver tudo isso. Ou por não achar que seja importante prestar atenção nesses detalhes idiotas. Ou por não achar que uma amizade seja importante. Ou mesmo por não acreditar que se é possível amar uma só pessoa para o resto de sua vida. Talvez você ache mais fácil viver como se tudo fosse descartável, até mesmo o cheiro da tua infância. Até mesmo as lembranças que lhe dariam conforto em momentos de pouca sorte. Talvez você ache que é mais homem ou mais mulher, mais senhor de si, por não precisar de tudo isso. Ou pior, talvez você realmente não tenha vivido tudo isso. Se não viveu, ainda há tempo. Mas não corra agora, apenas queira que tudo isso aconteça. Espere a oportunidade de viver de verdade cada momento que lhe for permitido. Mesmo que demore, vale a pena. Sem exagero nenhum, valeria uma vida toda esperar pelos últimos cinco minutos de sanidade e ainda experimentar um pouco do que é sentir a vida dessa forma.

 

   



- Postado por: Sandro Mazurechen às 10h16
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Sonho não sonhar.

                                               

 

Sonhar nos ensina a não sonhar. Entregar-se por inteiro e acreditar em cada palavra que nos é dita pela pessoa que faz nossa alma gritar de desejo nos ensina a não sonhar. Quando me perguntaram: “E você, não sonha?”, minha resposta foi simplesmente “não”. O mais engraçado dessa situação é que ninguém está interessado em quais sonhos não tenho, e porque não os tenho. Pensando bem, é melhor que não saibam. Mas, mesmo assim, se me perguntassem o que sei sobre sonhos, eu diria que esquecessem tudo o que já ouviram falar sobre o amor. Que esquecessem as princesas que esperam por um cavaleiro encantado. Não é mais isso que as princesas querem. Aliás, as princesas não existem mais. Nem existem mais os castelos, os cavalos, muito menos os cavaleiros. Que esquecessem as tardes de primavera. Elas também já não existem mais. Já não há mais flores, ou pássaros cantando, ou o barulho do córrego embalando beijos apaixonados. As folhas já caíram há tempos e o inverno está bem mais próximo de tudo o que se assemelha ao amor. Hoje não conheço sequer um coração capaz de amar o tipo de amor que sonhei para mim. Enquanto eu era ainda capaz de sonhar e buscar o amor, a esperança de que ele existisse me fazia vivo. Aqueles que passaram pelo rigor do inverno sabem do que falo. Aqueles que ainda estão vivendo a primavera não imaginam a dor que os espera. Nem vislumbram o que é ver seus cristais de gelo quebrados ao chão. Felizes aqueles que não sonham, pois qualquer amor lhes é licito. Não se importam com o fim, aliás, se forem como eu, chego a duvidar de que se importem com o começo. Chego a pensar que, por vezes, é bem melhor não ter sonhos, já que se é muito mais feliz sem eles. Afinal, sonhar significa ficar angustiado. Primeiro, a angústia de alcançá-los. Depois, a angústia de mantê-los, e a eterna angústia de que não acabem. E não falo apenas de sonhos de amor. Qualquer sonho hoje me parece uma busca insana de autodestruição. Você já parou para pensar em quantos sonhos não tem mais a mínima importância para você? Quantos você teve, quantos alcançou, quantos não? Parece-me que eles são todos iguais. Depois que passam, com êxito ou não, ficam todos guardados na mesma gaveta. Agora, o que é mais irônico nos sonhos é olhar para trás e sentir-se culpado por tê-los sonhado. É dar graças aos deuses por ter desistido deles. É pensar como se foi capaz de acreditar que se chegaria àquele objetivo. É arrepender-se de ter sonhado. Muitos acham melhor arrepender-se de algo feito a se arrepender de algo não feito. Mas se estamos falando de sonhos, o que foi feito? Nada, foi apenas sonhado. Quando me perguntaram: “E você, não sonha?”, minha resposta foi simplesmente “não”. Meu único sonho era não sonhar mais.

 

   



- Postado por: Sandro Mazurechen às 10h13
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Que tipo de amor você quer? A sorte de um amor tranqüilo? A certeza de que alguém lhe espera? Não quero um amor tranqüilo. Já tive um e acabou morrendo. Agora, quero um amor que me tire o sono. Que provoque minha raiva e incendeie meu ciúme. Quero um amor que atropele minha vida e minha paz. Alguém que destrua meus sonhos mais românticos e infantis. Quero quem me abandone e me persiga. Aquela que me domine, me escandalize e escravize. A doçura do sorriso e o amargo das mentiras. Imperfeita. Quero que minta como eu. Perfeita. E que confie como eu.  Quero que seja como ferida aberta. Que sonhe e que me permita sonhar. Que me ignore. Que se paralise ao ver-me. Quero que respire sexo e se entregue como se entregam os animais. Ferocidade. Quero sentir seu cheiro a distância e perceber que me deseja, e sentir a água inundando a boca ao vê-la apertada na calça jeans. Quero a ternura da ilusão de tê-la só minha. E os olhares cobiçosos dos outros homens quando a vêem passar. Não quero um amor tranqüilo. Quero a sorte de um amor vivo.

 

 

   



- Postado por: Sandro Mazurechen às 14h32
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Enundo

 

Andando descalço pela praia, as ondas cochicham meus pensamentos enquanto a areia massageia suavemente a sola dos meus pés. Apesar do dia morno, a noite trouxe uma brisa fria e, por mais tolerável que seja, meu peito se contrai. É estranho sentir a água morna e a areia passando entre os dedos, a brisa fria no peito nu, as mãos confortavelmente aquecidas dentro dos bolsos da calça jeans azul.  No começo, percebo cada sensação isoladamente, uma após a outra. Mas estão todas juntas. O borbulho das ondas continua, meus pensamentos me chamam. Tento erguer minha cabeça no afã de que as memórias se diluam. Fecho os olhos e respiro fundo. O cheiro do mar me preenche e me entorpece. Quando abro os olhos, vejo refletida uma estrela no mar calmo. A noite clara, azul e limpa me permite ver outras estrelas, mas essa, especialmente, chama minha atenção. Talvez o brilho, as cores. Talvez a forma como foi refletida pelo mar. Não sei ao certo. A única coisa de que tenho consciência é de sua irrealidade. Por mais que fosse possível erguer meus olhos a ponto de distinguir essa estrela na noite azul, eu saberia que ela não é real. Lembro ter lido, ou foi um professor quem me disse em uma aula de geografia talvez, que o que vemos não são as estrelas. Elas já morreram a muito tempo. E, por algum motivo – físico, quântico ou astronômico – ,  o que vemos é apenas o brilho que restou delas. Mesmo assim, aceito acreditar na estrela refletida no mar. Dessa forma, ela estaria mais próxima. Sinto poder tocá-la. Aos poucos meu peito nu se vê envolto de um morno suave. Também aos poucos meus pés deixam de sentir o chão. À medida que tento me aproximar, aguço meu paladar e bebo do mar como se fosse doce. Ignoro a falta da areia nos pés, do ar frio inflando o peito, e estendo os braços para tocar a estrela que não existe. Embebido de sal, com os pés indo ao fundo, tentando sentir novamente a base segura, meus olhos voltam-se para a noite e, muito mais distante agora, lá está minha estrela. No último momento, quando o último sopro de brisa fria deixou meu peito, ainda pude ouvir uma onda cochichar que o mar e a estrela juntos são a visão mais bela refletida em meus olhos.



- Postado por: Sandro Mazurechen às 10h27
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Apenas ela.


Estive pensando sobre o que diferencia uma pessoa que sabe escrever bem das outras, pobres mortais, que apenas escrevem. Lembrei-me de alguns nomes famosos da literatura, de alguns dramaturgos, poetas. Claro que nem todos serviriam como ótimos exemplos de fabulosos escritores, mas alguns sim. Estou me referindo àqueles que fazem com que suas obras ultrapassem a materialidade do papel. Àqueles que fazem com que sintamos o gosto excitante do creme de chocolate que está sendo servido em um banquete para um bando de convidados enfadonhos. Àqueles que nos permitem sentir o cheiro rejuvenescedor do perfume que exala dos corpos de dois jovens apaixonados quando se encontram. É desses escritores que estou falando e é exatamente neles que pensei. Provavelmente a grande maioria das pessoas diria que escrever assim é um dom, talvez até divino. Outros diriam que não passa de uma questão de prática, de trato com as palavras, de organiza-las de forma estilística com o intuito de provocar uma reação previsível frente ao que foi escrito. Não acredito nessa explicação, nem, muito menos, na primeira. Não posso admitir que alguns, apenas alguns, já nasçam predestinados a ter mais “facilidade” com as palavras. Ou ainda que uma fórmula mecânica de organização puramente gramatical seja capaz de exteriorizar os anseios da alma. Pareceu-me, então, que estava faltando encontrar o que havia de comum entre aquelas obras. Até tentei. Li, reli, comparei, rabisquei trechos dos livros e das poesias. Cheguei até a escutar algumas nas vozes dos locutores globais, naqueles CDs que vêem em caixas de metal bonitas. Mas não encontrei a resposta. Como em toda busca inútil, desanimei. Voltei novamente meus pensamentos para os problemas cotidianos. As contas para pagar, a atualização profissional, os amigos que não vi mais, as fofocas de família, os amores que perdi e o quanto sofri com a perda. Comecei a reparar nas pessoas em minha volta. Os olhares tristes e desconsolados de algumas. O riso frouxo e contagiante de outras. Algumas se sentindo muito bem ao fazerem e enfrentarem o que a vida lhes impunha, outras lastimando e maldizendo cada minuto de sua existência. Foi então que parei por um minuto e a resposta esbofeteou minha cara. – É isso! – Gritou minha alma, como se já não soubesse. – A paixão. No fim, tudo se resume à paixão. Não só ao escrever, mas ao trabalhar, ao se divertir, ao acompanhar, ao desacompanhar, ao permitir-se, ao proibir-se. Tudo se resume à paixão. Talvez, se esses escritores resolvessem ser médicos, publicitários, donas de casa, garis, não fossem tão bons. Ou fossem melhores ainda. Tudo dependeria do quanto eles se entregariam ao que estariam fazendo. O quanto se satisfariam com suas próprias existências. Percebi, então, que não é o que ou como eles escrevem que faz a diferença, mas sim a carga de paixão que eles colocam no que fazem. O que me encanta em suas obras não é nem o que foi escrito. Não agradeço por terem escrito, mas por terem se apaixonado.

 

   




- Postado por: Sandro Mazurechen às 18h01
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Se eu pudesse


 


Se eu pudesse fazer um som para você, eu faria um som perfeito. Como tudo que é perfeito, seria um som sublime e acabado. Seria um som como flores de cerejeira caindo com seu rosa pálido. Seria um som como o último fôlego de gozo de amantes. Como jarro de leite partindo-se ao chão. Como suspiros de chegada ou soluços de partida. Seria perfeito. Porque perfeito é o que acaba, não o que continua. É o final da primavera. É explosão do corpo no corpo. São os cacos deitados ao chão. Não é saudade, é o contrário dela. Não é estar, é a falta. O perfeito é o feito. É intocável. Tudo que é vivo, tudo que continua, tudo que luta, o faz em busca da perfeição. Tudo caminha para o fim. Assim seria o som que eu faria para você. Algo que começasse com notas suaves e tímidas, e, pouco a pouco, fosse tomando corpo e intensidade nunca antes sentida. Como o som do medo ou da morte. Como o som de mil bombas. E, de repente, silêncio. Absoluto silêncio. Nada mais. O som que eu faria para você seria assim. Mas, para que fosse realmente perfeito, não poderia ser repetido. Somente poderia ser tocado uma única vez, escutado uma única vez. Só assim ele seria perfeitamente seu. Caso contrário você poderia dizer para qualquer um que esse era o som que alguém fez para você. Ele seria copiado e repetido infinitas vezes. Todos admirariam sua soi-disant exatidão, mas ninguém seria capaz de perceber que seu real encanto estaria na solidão de ser único. Então, depois de ter sido escutado e tocado à exaustão, todos questionariam sua pureza e unicidade. Tornar-se-ia um som comum, como qualquer outro som. Dessa forma, deixaria de ser seu. Se eu pudesse, eu faria um som para você. Mas não posso. O que posso é tentar traduzi-lo em palavra. Mesmo que a palavra não seja minha, nem sua, nem de ninguém.



- Postado por: Sandro Mazurechen às 11h17
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N.U.M.B.


 


Desilusão. Sentimento muito facilmente confundido com amor. Entretanto, apesar das semelhanças entre eles, a desilusão é algo muito pior. Talvez seja certo dizer que a desilusão acaba por ser a filha mais precoce do amor. Já nasce alcançando proporções gigantescas. Por vezes nasce maior que seu pai. De certa forma ela ocupa o mesmo espaço que o amor dentro do coração dos tolos apaixonados. E, por vezes, transborda, fazendo com que o pobre corpo sucumba a sua força. A falta de ar, que faz suspiros eternos surgirem de algum lugar que não sabemos onde, é a mesma. O aperto no peito, que faz querermos sair de nós mesmos, como que fugindo da dor, é quase que eterno. A vontade de chorar por causa da lembrança das promessas não cumpridas acaba na garganta, presa pelo último suspiro de dignidade e amor próprio. Fiquei tentando encontrar uma forma de entender como essa intrusa ocupa o lugar de algo que antes era tão saboroso e pleno. Então, imaginei uma mesa. Uma mesa estreita e longa. Não era possível ver até onde ela ia, mas o importante é que ela estava lá. Sobre ela uma toalha de linho branca. Brancura comparável à pureza da alma de um anjo bom, porém, denso como os ventos que formam o olho de um ciclone. Ao seu lado, duas pessoas. Seus rostos são incompreensíveis, indecifráveis, assim como seus sexos. Mas o certo é que estavam juntas. Com uma das mãos, seguravam juntas uma garrafa de vinho. Pelos seus gestos rápidos, percebia-se que ambas estavam ansiosas para degusta-lo. Assim, com a outra mão, elas colocavam taças sobre a mesa. Apressadamente as taças iam se alinhando. Algumas colocadas com muito esmero, outras saindo um pouco da ordem esperada. Mas o que importava para aquelas duas figuras sedentas era que elas estivessem lá. Enquanto a mesa é posta, o vinho é aberto e algumas taças são enchidas e o vinho degustado com toda a sede que os dois têm. O que os incita a continuar. E, de instante a instante, outras vão à boca de vinho e esvaziam-se quase que instantaneamente, sendo jogadas á mesa e deixando que as gotas que restaram caiam sobre o linho, agora manchado. Entretanto, talvez por descuido, ou por ter deixado de apreciar tão inebriante aroma, uma das pessoas deixa que o vinho caia todo sobre a mesa. Com a garrafa vazia, aquela que, ainda sedenta, continua seu ritual, não se percebe sozinha tentando preencher as taças que restam. Por estar embriagada, mal consegue perceber a enorme mancha que ficou na toalha. Conforme o tempo vai passando, ela se percebe só. O vinho derramado, as taças caídas, a garrafa vazia e a sede. E é então que se percebe que a falta não cabe no espaço deixado. Falta é muito maior que as taças. Não cabe nelas. Resta apenas duas escolhas. Tentar encher as taças que ficaram em pé com o vazio que há na garrafa, ou tirar a mesa, agora sozinho, e esperar encher outros copos com outros vinhos.

 



- Postado por: Sandro Mazurechen às 13h27
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Aceita-me


Por que o silêncio também ecoa

E toda forma de existência torna-se nula

Frente ao que tu silencias,

A espera pelo teu grito torna-me caverna

Onde não só teu silêncio,

Mas o que também foi prometido,

Repete-se incessantemente sem sentido.



- Postado por: Sandro Mazurechen às 17h26
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Para fora

                                                        (tela de Fabrizio Castorina)

 

 

 

À procura do lirismo perfeito 

Algo capaz de expressar com exatidão

O peso que faço sobre a caneta 

O amargo da tinta vã que borra o papel.

 

A palavra que faltou à boca; 

A sinceridade que te faltou à alma;

A realidade que nos faltou ao sonho; 

A falta que fez não ter sentido falta.

 

Versos sem cuidado 

Vazios. Quem sabe?

Pobres, diriam. 

Mas, livres. 

Agora param de gritar em minha cabeça

Como um cão enfurecido com a menina

que passa batendo a trave no gradio.



- Postado por: Sandro Mazurechen às 13h47
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Palavra Nula


 

“ A linguagem é a morada do ser”. (Heidegger)

 

Se Heidegger estava certo, moramos em um espaço que não conhecemos. Um labirinto que se transmuta incessantemente. Um jogo desconexo de sentidos, significações, que se perdem meio ao refazimento inopinado de suas próprias existências. É assim que vejo as palavras - nulas. Não nos cabe significar-lhes. Não nos cabe entendê-las. Cabe-nos, apenas,obedece-las. Não são nossa morada, são nossa cela.

 



- Postado por: Sandro Mazurechen às 17h09
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A carne nua

A carne nua

Desvendada toda a forma

Não a desejada

Mas, mesmo assim, absoluta 

 

Percebo que o desejo independe da nudez

Que tua carne agora mostra

Me faço banido do que se espera de um homem

E me entrego ao capricho do que sinto.



- Postado por: Sandro Mazurechen às 14h53
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